Homo homini lupus

Outro dia recebi um e-mail confuso, dizendo que eu escrevia coisas horríveis aqui no blog. Respondi num outro texto, que quando escrevo, estou frio. Não é o caso agora. Estou com um gosto muito amargo na boca. É foda, depois de 36 anos, após 4 anos de jornalismo policial, outros tantos de vida e ter visto muita merda, ainda ver que é possível ficar extremamente surpreso e decepcionado com o ser humano.
Meu filho de cinco anos brincava às vezes com um menino aqui da rua, de oito anos. Sempre vigiei as brincadeiras meio de longe, pra não interferir. Sempre temi que a diferença de idade pudesse ferir meu filho, de algum modo. Não compreendia qual o interesse da criança mais velha em brincar com a mais nova. Apesar dessa dúvida, deixava brincar, porque o menino parecia genuinamente interessado em brincar com o mais novo. Quisera ter vigiado mais de perto, antes.
Francisco ainda traz as barras da calça brancas, apesar da poça funda de lodo que é esse planeta. Se afeiçoou verdadeiramente ao menino. O inclui nas orações, antes de dormir. Hoje, o menino veio aqui em casa brincar. Os dois estavam na sala, eu ofereci fritar batatas pros dois, aceitaram na hora. Enquanto descascava, não pude deixar de ouvir o que diziam.
-Francisco, me dá esse dinoblock...
-Mas eu gosto dele...
-Ah, você não é meu amigo de verdade?
-Sou...
-Então me dá.
-Tá...
Cortei a batata com revolta contida, sentindo angústia e decepção.
-Francisco, troca esse carrinho do Batman comigo..
-Mas eu gosto dele...
Criar uma criança eventualmente traz dilemas morais em que toda a sua sabedoria e fibra são postas à prova. Atitudes que você tem diante do seu filho reverberarão gerações depois. Mesmo as aparentemente pequenas É simples e gigantesco assim. Fiquei numa dúvida atroz do que fazer. Interfiro agora? Deixo estar? Falo depois?
Tratei de fritar a batata, enquanto cozinhava os miolos em fogo alto. Servi, sem olhar o menino nos olhos.
-Tá gostoso, tio.
Eles comeram. O pai do menino chamou, da rua. Enquanto ele saía, disse:
-Deixa eu ver se não estou esquecendo nada...
Resolvi usar a deixa.
- Tá esquecendo de deixar os brinquedos do Francisco. Ele não quer trocar esses.
- Ah, mas ele quer sim.
- Não quer, não.
Com raiva, o menino devolveu os brinquedos. Fui à cozinha apanhar a chave do portão. Na volta, meu filho está sentado na escada, com a cabeça baixa.
- Que foi, filho? onde estão os teus carrinhos?
- Ele levou, papai, ele disse pra mim não contar pra você;
Disse ao meu filho que esse comportamento era feio, era errado, e que o menino não poderia mais frequentar nossa casa. Ele, lógico, abriu um berreiro. Com muito, muito custo, tentei explicar pra ele que é errado roubar, que é errado enganar os outros, que é errado mentir, que uma pessoa pra ser sua amiga de verdade não exige nada mais que sua amizade, e ainda que os brinquedos dele são dele, e não devem ser trocados quando ele não quiser, que os brinquedos custam dinheiro e que uma criança mais velha às vezes abusa. Conceitos muito avançados para uma criança de cinco anos, mas que infelizmente sou forçado a ensinar. Aí, descubro que o menino levou muitos dos brinquedos do meu filho embora. Muitos mesmo, alguns que ele gostava muito, como os bonecos do desenho Ben 10.
Quando minha mulher chegou e fui apanhá-la no metrô, relatei a história. Pelo menos, ela foi lá e conseguiu recuperar os carrinhos que ele havia pegado nessa última vez em que entrou na minha casa. Ele foi bastante mal-educado, segundo minha mulher. Não acompanhei pra não arrumar briga com os pais do menino, que nada tem a ver com a história. Porque índole é índole. Conversando sobre o que aconteceu, nem minha mulher nem eu conseguimos lembrar de ter feito isso com outra criança, em nossa infância, mas sim de termos sido enganados de forma semelhante por crianças mais velhas. É, o homem é o lobo do homem, mesmo ainda filhote.
Escrito por Fabinho às 04h47
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O Império do Tungstênio

Quando eu tinha uns 7 anos, vi um documentário sobre fabricação de lâmpadas. Ali dizia que o filamento que fica incandescente é feito de tungstênio, metal relativamente raro. Esse relativamente já bastou pra transformar o tungstênio em ouro, pra mim. Passei a pedir pra vizinhança toda guardar lâmpadas queimadas pra mim. Quando arrumava uma, enrolava em jornal, quebrava com cuidado e separava o filamento de tungstênio. Guardava num frasco vazio de comprimidos, que tinha guardado justamente pra colocar algum tesouro. Em alguns meses e depois de muitos cortes nos dedos, tinha quase meio vidrinho de tungstênio. Meio vidro de tungstênio puro! Meu pai chegou a resmungar algo sobre intoxicação e ameaçou jogar tudo fora, como fez na vez em que comecei a juntar mercúrio.
Já imaginava o que eu poderia fazer com todo o dinheiro que ia conseguir, com a venda do tungstênio. Brinquedos caros, um minibug, com certeza. O tão desejado lança-chamas. Em alguns anos, construiria um império, forjado em tungstênio puro, calcado em reles lâmpadas quebradas, desprezadas por todos. Idiotas. Um dia, voltando da escola, vi uma lâmpada queimada em casa, quebrei, tirei o metal. Fui procurar o vidrinho no meu armário, choque, não estava lá. Algum ladrão ardiloso havia descoberto meu plano. Alguém havia se apoderado do meu precioso metal. Esperneei, berrei, chutei, chorei. Uma breve investigação da minha mãe concluiu que a empregada achou o vidrinho, achou que era sujeira e jogou fora. E esse foi o fim do meu Império do Tungstênio.
Escrito por Fabinho às 15h55
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Tudo explicado

O tal kryon
Escutei numa rádio de programas esotéricos uma mulher falando sobre o verdadeiro motivo do planeta estar todo fodido, com as estações misturadas, enchentes, furacões, terremotos e etecétera. É o trabalho de uma entidade mística chamada Kryon (diz-se cráion), que veio aqui para alterar o eixo magnético da terra. Ah, certo, isso explica muita coisa, então.
Tenho certeza de que foi o Dr. Gori que invocou o tal Kryon a partir do lixo. Melhor chamar o Spectreman. A mulher, claro, vende palestras e cursos sobre as besteiras que diz na rádio. Baboseira de lado, o eixo magnético da Terra muda naturalmente em média a cada 250 mil anos, aproximadamente. Porém, já se passaram 780 mil desde a última mudança, e cientistas da área acreditam que essa mudança pode estar ocorrendo agora.
Escrito por Fabinho às 05h39
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